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O Retorno de Saturno

Por Elias Nogueira


Lançando seu quarto álbum "O Retorno de Saturno", o primeiro pela Sony-BMG (depois de três pela Warner), e também o primeiro sem o guitarrista Rodrigo Netto, vítima da violência urbana, o quinteto carioca - formado por Tico Santa Cruz (vocal), Cléston (DJ e percussão), Renato Rocha (guitarra), Tchello (baixo) e Fábio Brasil (bateria) - demonstram mais maturidade devido à experiência que vêm adquirindo desde que lançaram o primeiro disco em 2002. Com canções menos pesadas, letras bem definidas e acertando o alvo que é proposto, o Detonautas Roque Clube vem confirmar que o melhor disco de sua carreira é "O Retorno de Saturno" - que vem recheado de canções com potencial para se tornarem sucessos, como a faixa título e também Nada É Sempre Igual. Em entrevista ao INTERNATIONAL MAGAZINE, o cantor, compositor e também guitarrista Tico Santa cruz falou sobre como foi concebido o disco e outras coisas interessantes.


Fale do "Retorno de Saturno". Quando tempo durou para ficar pronto?
Comecei a compor estas canções em 2007, mais precisamente em janeiro - quando fui para Trancoso na Bahia fazer um retiro. Levei o violão sem imaginar que algo pudesse sair. Quando as músicas começaram a tomar forma, gravei na secretária eletrônica do meu celular. Depois que voltei para o Rio de Janeiro mostrei pra banda e fizemos uns ensaios só com violão e piano. Soou tudo muito bonito e não foi preciso pensar muito para concluir que esse seria o clima do disco. Quando entramos para gravar, no fim do mesmo ano, fizemos tudo muito rapidamente devido à simplicidade a qual estávamos dispostos a conceber o trabalho. Ao todo um ano e quatro meses.

Fernando Magalhães mais uma vez esteve com vocês.
Fernandão é um querido. Nosso parceiro desde o princípio. Além dele o Tomás Magno, também, foi o produtor e assinamos todos juntos, pois o trabalho fora exatamente dessa forma. Em alguns momentos ficávamos sozinhos, em outros, com na companhia de um deles e em outros juntos. Isso deu uma diversidade e uma liberdade para interpretarmos com o sentimento mais sincero possível e tendo duas pessoas observando e nos ajudando com seu olhar distanciado. Fernando fez o Baixo de "Soldados de chumbo" incluiu algumas guitarras que tem uma personalidade incrível e junto com o Renato e o Tomás tirou altos sons dos instrumentos que escolhemos. É uma parceria que sempre deu frutos.

Seleção de repertório. Como foi feita?
Das 14 músicas que fiz em Trancoso, 11 entraram no disco. Fizemos ainda um no estúdio ao longo dos ensaios e compôs como conteúdo digital. Vai ser disponibilizado para o público em breve. Nós sabíamos o tempo todo o que queríamos então foi entrar e ser objetivo.

A inspiração para compor continua como antes?
A inspiração é algo inexplicável, porém quando estás com tua imaginação e teu vocabulário em constante exercício fica bem mais fácil de expressá-la no papel e em melodias. Tenho lido muito de seis anos para cá e isso fez com que conseguisse materializar idéias que antes só conseguia expressar em textos. Sei que ainda preciso amadurecer muita coisa, mas tenho consciência de que estou no caminho certo.

Foi difícil fazer o novo trabalho com ausência do Rodrigo Netto?
Sem dúvida. A ausência dele como pessoa, compositor, criador e amigo deixa um buraco na alma e esse buraco só pode ser preenchido trazendo sua energia para o dia a dia. Na verdade ele só esteve ausente fisicamente, pois sentimos a presença dele e isso se reflete nas letras e canções.

No disco a banda está com rock com menos peso. É efeito da perda do amigo?
Não sei se é efeito. Creio que o que vivemos pós a perda violenta do Netto nos conduziu para esse lugar. Nossos discos são fases claras da banda, não nos interessa repetir formular e fazer cover de nós mesmos. Queremos sempre experimentar e o natural foi que as coisas levassem a sonoridade para onde foi.

Em shows haverá necessidade de outro guitarrista?
Embora eu esteja tocando violão e guitarra, o Phelipe - que era roadie do Netto - assumiu uma das guitarras, pois o que ele fazia era tão importante que não havia uma forma de simplesmente ignorar e passar a trabalhar com um guitarrista a menos.

Você atualmente passa para o público que não é somente cantor de uma banda de rock, mas uma pessoa que se preocupa com as causas sociais. Isso se deu após o desaparecimento do Rodrigo Netto ou você sempre foi engajado politicamente?
Para quem só me conheceu depois da tragédia pode ser. Porém basta pesquisar, vasculhar minha vida, assistir a shows antigos e ao próprio DVD para desfazer tal engano. Não tenho como controlar a opinião alheia, mas é fato que a mídia abriu mais espaço para que eu pudesse introduzir alguns temas que antes ficavam restritos a apresentações e blogs.



Faixa a faixa
01 - O retorno de Saturno
Um lindo final de tarde cor de rosa no Arpoador.

02 - Nada é sempre igual
Confessional

03 Verdades do mundo
Dedicada ao Netto

04 - Só pelo bem querer
Minha maneira de enxergar o relacionamento homem e mulher sem envolver o amor romântico que é vendido pelas novelas. É estar com alguém por que se quer e não por um compromisso social, moral ou religioso.

05 - Lógica
Primeira canção que escrevi, também, para o Rodrigo. Tive muitos sonhos com ele.

06 Tanto faz
Confessional.

07 - Oração do horizonte
Representa tudo que falo nos protestos contra a violência.

08 - Soldados de chumbo
Uma cantiga de ninar com uma letra ácida.

09 - Ensaio sobre a cegueira
Além de ser uma homenagem ao Saramago por quem sou altamente influenciado, é uma forma de aguçar a curiosidade dos fãs com a literatura. Se os rappers americanos ostentam carrões, jóias e mulheres, nós queremos divulgar um universo diferente: a literatura.

10 - Enquanto houver
Tem endereço certo.

11 - Eu vou vomitar em você
Muito intelectual, de butique e de botequim, se identificará com essa canção. Muita gente vai vestir a carapuça.



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